4 de mar de 2012

A Fuga de Ana (Jurandir Bozo)




 (Ana V)

Amanheceu
E o calor me leva ao chuveiro
Deixo então a água tocar-me
Desliza sobre mim
Como se levasse com ela
À noite ainda mal dormida
Molhado, sinto-me sufocar
Entre as paredes brancas da sala
Que já não são refúgios
Como se o mundo que criei
Estivesse em escombros
E todas as Anas que havia em mim
Estivassem em fuga
Escorrendo pelas palavras e lagrimas
Saiam pelas brechas das portas
Pelos ralos das pias
Todas as Anas que sonhei
Já não mais conseguia prender-las em mim
Faltamente um dia elas iriam embora
E disso eu a muito já sabia
Mas observava tudo na terceira pessoa
Atónito sentia-me alheio ao processo
Perdia o pouco que tinha de Ana
E seus plurais mais singulares
Depois de uma noite de luta
A possível vontade de Ana
De querer partir de mim
Venceria meu desejo
Para que ela permanecesse comigo
Como convencer ou viver sem Ana
Se até o apartamento já sentia sua presença
Se meus lençóis já absolveram
O cheiro que havia lhe dado
Intensa fugaz foi minha paixão por Ana
Derretendo-me vou ao encontro do chão frio
Feito água escoro a recordar
Escondido e transpirando pelos olhos
Os amores e fantasias que já perdi
Arrancando de mim com força as expressões
Tatuadas em meu rosto quase morto
Que gritava ao perceber-se despido
Exposto, sem mascaras, maquiagem ou fantasias
Olhando para o nada como se avistasse algo especial
De mim saiu sangue transparente feito cor de sonho
E saía também a essência do que era Ana em mim
Do que era Ana aqui em minha alma
Indo para o desconhecido sem perspectiva de voltar



(Postado em 15/12/2010)

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