27 de jun de 2009

Tua Luz (Fábio Sirino)



Eu vi todos os teus sapatos
Guardei em mim tuas fotos e encantos
Teu charme e tua dança
Sentia-me parte do universo do teu quarto
Mesmo sendo um estranho
Percorri desesperado
Todos os teus registros
Buscando somente a ti
Como se única fonte para saciar
Meu desejo instintivo
Fosse tua carne e tuas curvas
Assim todas as lendas e parábolas
Teriam finais felizes
Mesmo que virtuais
Pois sou rápido para encontrar e entender
O caminho que me espera
Mas demoro a chegar ao fim
Já que daqui não elucidei
Luz que hoje me cerca.

Um Final Feliz (Fábio Sirino)


Não queiras matar-te
Ainda é cedo para pôr fim aos sonhos
E são tantos e tão poucos
Que se vão com a poeira
Pelos cantos da casa
Limpando as coisas para dar a festa
Com confetes, serpentinas e bambas
Nos estalos dos fogos
Na explosão das cores
Com a mesma pólvora que mata
Sinaliza-se a celebração do renascimento
Fazendo os planetas girarem fora de órbita
Sanando cortes e queimando filmes
Em poses coloridas e subliminares
Que olhos tristes colecionam
Perdendo a validade das lembranças que machucam
Pulsando no pulso que sangrava som
Nas cicatrizes que marcam e desenham a alma
Eu enxergo a palma da tua mão
E sinto tuas unhas se colorindo do meu sangue
Marcando meus poemas
Temendo a tempestade
Mas a chuva sempre há de passar
E lá estará o sol
Sem o peso das nuvens
Ele apenas sorri
Sabendo do desfecho de histórias íntimas
Costurando em segredo corações partidos
Cavalgando por novos amores
Então baixe as armas
Leve a bala vermelha aos lábios
No intuito de adoçar os dias de chuva
Pois os meses das trevas passarão
É sempre assim nos extremos dos pólos
Chega à noite, chega o frio
Tudo morre, tudo apenas se esconde
Mas ali no meio do vazio o verde resiste
Como se soubesse o destino dos ventos
Onde sopra teus mistérios
E nasce a estrela que guia teus encantos
Não queiras a morte princesa das cores
Deseje muito mais do que esperas
Que ainda é cedo para pôr fim a um álbum
De tão poucas fotografias
E por maior que seja a vivência
Tua juventude muito ainda tem a descobrir
Dentre as máquinas, as lentes
Os flashes e os cobertores
Há sempre um “com puta dor”
À espera de novos arquivos de imagem
Ou de um final feliz.

16 de jun de 2009

A Redenção (Fábio Sirino)





Joguem a próxima pedra em mim
Não tenham compaixão pelos pecadores
Pois eu nunca a tive pelos puritanos
E acertaria bem na cabeça
Se o acaso permitisse que a pedra
Em minhas mãos estivesse.
Massacraria Madalena arrependida
E tantos outros tidos a santos
Já me expurga em nojo o bom garoto
O fim das novelas e das fabulas
Onde a cada capitulo já me sinto por fora
Pois hora sou um pouco do bandido
E em outras, um pouco mocinho
Assim identifico-me entre as vitimas
De uma equação religiosa cristã ocidental
Por quantos segredos percorrem os desejos celibatários?
Por quanto se compra um sacerdote em horário de televisão?
Talvez dividindo pela fé ou no cartão
Não saia caro ter um cervo de Deus a minha disposição...
Mas é entre respeito ao amor e a profanação luxuriosa
Que andam meus pensamentos dilemáticos
Entre a precoce fúria perigosa do desejo
E a calmaria dos nobres e ingênuos sentimentos
O desejo sim
Tem um poder de destruição bem maior
Com ele o sabor das carnes e suas cores
E me perdoem os vegetarianos
Mas as carnes dos vivos são mais apetitosas
Com ou sem silicone ou celulite
Com músculos ou gordura
Degustar suado em momentos antropofágicos
Outros iguais ou quase iguais
Deixam-me ainda mais egoísta e completo
É por isso que digo
Joguem a próxima pedra em mim
Matem-me apedrejado
Ou deixem-me viver meus pecados
Que não ousarei queixar-me de nada.

15 de jun de 2009

Intenções (Fábio Sirino)


Exercita a tua bondade
Para que eu a má entenda
Pois a generosidade do outro
Nada mais é que o sumo egoísmo
Que o personalismo humano insiste em negar
Não acredito mais em finais felizes
Creio em meios e fins reais
A utopia é que me causa náusea
E por mais sonhador que seja
Vomito um resto de alma
A cada manhã que consigo acordar
Órfão de valores que não irriguei
Nessa seca de vida que vitimei
Não tem feriados ou ferimentos
Apenas descrédito no mito
Na sublimação das figuras que adoramos
Formas e texturas de curtas e longas culturas
Assim tua justiça será sempre menos justa
Que a empáfia de afirmar minhas verdades
Quais de nossas orações se assemelham
As de um fariseu contemporâneo?
Qual oratória obtém mais audiência
Sem a responsabilidade da lógica do discurso?
Em minha revolução descoberta
Fui exilado aqui nessa poesia
E descobrindo o mundo
Pelo ponto de vista da queda
A tua caridade e a tua inocência
Só me levam ao inferno,
Repleto de boas intenções.