15 de ago de 2006

Palavras de Absinto (*Estrela)


(Intimidade)
Ele me viu nua, já no primeiro dia.
Pois, de que outra forma teria visto minha alma?
E eu sei que viu!
Eu, que a vida toda tantos cuidados tomei
para mostrar minha essência
apenas ao que me inspirasse confiança,
agora, me via nua, diante daquele estranho,
que só não me fitava os olhos,
mas por todo meu corpo e pela minh’alma corria os seus.
*
E Ele não se contentava em apenas me olhar.
Queria mais!
Imaginem: queria fazer minha leitura!
Ah, não, isso não!
Isso eu não permitiria!
E até que sou tolerante.
Mas, nesse caso, quanta ousadia!
*
Mulher braba, que sempre fui,
Esperneei, ameacei, roguei pragas,
Sem medo que, atiçando sua ira,
ali minha existência chegasse ao fim
– mas era mal menor que a exposição,
que naquele momento eu sofria.
*
E maldisse seu sangue,
em todas as gerações que lhe seguissem,
Se chegasse mais perto de mim.
*
Gritar, não! Isso eu não fiz!
Ele não podia conhecer mais um pedaço de mim,
tão bem guardado,
sem que me trouxesse ainda mais encantos.
*
Não gritei, e nem recitei poemas.
Aquilo tudo era intimidade demais para eu suportar
sem medos e sem acanhamentos.
*
Exausta com toda aquela situação, proferi em desespero:
“Afaste-se de minha alma!”
Foi somente essa a fala que conseguiu me arrancar,
em todos os momentos que (sobre) vivemos juntos.
*
Mas Ele não foi embora.
Alheio a minha ordem,
continuou a passear pelo meu corpo,
pelos meus pensamentos, pelas minhas pernas,
pelas minhas marcas, pelas minhas dores e delícias...
*
Finalmente Ele pareceu cansar.
Mas foi aí que me olhou nos olhos, espelhos do que sou.
E sorriu...
Pelo semblante, estava maravilhado...
*
Por um segundo, apenas, piscou os seus,
e saímos do transe, desconectamos.
Foi aí que me perdeu de vista.
Houve tempo suficiente para que eu pudesse fugir.
*
Pronto, era dona de mim de novo.
Inteira, audaz, indomada, corajosa, assustadora...
*
A partir daquele momento,
Ele passou a carregar um certo semblante...
Um semblante de gozo,
que eu só tinha visto antes
na face daqueles que pintam, escrevem,
dançam, tocam e assim seguem a celebrar a vida.
*
E sem que fizesse sentido algum,
assim, sem violências, sem toques,
sem palavras venenosas
sem nada que servisse para justificar a atitude,
Cobriu-se com seus cílios e se foi...
E nunca mais abriu os olhos para mim.
*
Pergunto-me, ainda hoje, o que somente ele viu,
que eu ainda não conheço.
O que de belo habita em mim,
que eu nem mesma sei, e nem tiro proveito.
E também o que machuca, e arranha, e fere, e mata.
Só sei que com sua ida,
algo se desencantou nos meus dias...
*
Desde então, nunca mais fiquei nua
para quem quer que fosse.
Sei como acontece, e aprendi a evitar.
Assim, passei a ser inteira e unicamente
desse estranho invasor de minh’alma.
*
Têm dias em que sinto um lamento, um peso...
uma quase saudade
Daquele estranho homem que me tirou a roupa,
visitou minha alma,
Conheceu-me inteira e se foi sem palavras...

BR das possibilidades (Fábio Sirino)

O medo do que fui
E o encanto do que és
Dão as regras desse jogo
Mas tendo o medo em mim
Temo todas as cartadas
E me fascino com as explicações
Entre o que fui e o que és
O oposto nos atrai.
A uma estrada sem volta
Na falta de pele
E peço censura as nossas palavras
Que vença o silencio
Que vença o beijo
Que vença o olhar
Que vença o desejo
E se o que fui deixar-me seguir
E o que eis levar-me junto
Não Haverá necessidade de desistência
Mas de novas estradas

8 de ago de 2006

Poema da avareza sentimental(*Estrela)

(O que me dás de ti )

O que me dás de ti...
É tudo – e tão-somente – o que te escapa entre os dedos.
O que tuas mãos trêmulas e cerradas não conseguem me esconder –
por mais que tentes.

O que me dás de ti...
É um breve olhar de relance, desses tão negros olhos acanhados...
É um sorriso do canto de tua grande boca, mas contido.
Um acidental roçar do teu forte braço
Ou ainda que um abraço, mas chega a mim frouxo e sofrido...

O que me dás de ti...
É um corpo que me vem ao longe, já oscilante,
Pernas cambaleantes, braços que não sabem onde estar...
É nada mais que uma palavra, em voz rouca.
Um suspirar ofegante...
Subitamente interrompido.
Privado do respirar, privado do meu cheiro... impedido de me amar!
Ainda assim, me vem ao longe seu coração sem cadência, assustado.

O que me dás de ti...
Pensamentos, censurados,
Desejos, ousados – mas secretos e discretamente sonegados.
E uma aparente – mas construída – indiferença,
O que acentua o teu charme blasé e reputação de “pessoa mal resolvida”.


O que me dás de ti,
O que somente me dás de ti, sem sovinices,
É a tua ausência...Com esta, me brindas em abundância!
Ah, a lentidão das horas que me visitam e se passam sem que eu perceba a tua luz...
Mas ainda que eu te mereça pouco...
Tão pouco, assim...
É menos do que a mim caberia...


(Poema enviado pelo orkut. )
Que as mulheres façam poemas como fazem vida. +
+Fábio Sirino.