28 de nov. de 2006

A Pessoa Errada (anônimo)




Pensando bem
Em tudo o que a gente vê, e vivencia
E ouve e pensa
Não existe uma pessoa certa pra gente
Existe uma pessoa
Que se você for parar pra pensar
É, na verdade, a pessoa errada.
Porque a pessoa certa
Faz tudo certinho
Chega na hora certa,
Fala as coisas certas,
Faz as coisas certas,
Mas nem sempre a gente está precisando das coisas certas.
Aí é a hora de procurar a pessoa errada.
A pessoa errada te faz perder a cabeça
Fazer loucuras
Perder a hora
Morrer de amor
A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar
Que é pra na hora que vocês se encontrarem
A entrega ser muito mais verdadeira
A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa
Essa pessoa vai te fazer chorar
Mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas
Essa pessoa vai tirar seu sono
Mas vai te dar em troca uma noite de amor inesquecível
Essa pessoa talvez te magoe
E depois te enche de mimos pedindo seu perdão.

(Que pena! Acho que para meu mal sou uma pessoa certa.
Não faço ninguém perder o sono!
Tão pouco faço alguém chorar...
Também não dou noites de amores inesquecíveis.
E ninguém me enche de mimos, ou me pede perdão...
Em fim... Eu sou a pessoa errada.
Que insistem em chamar de certa. *)
Fabio Sirino*

27 de nov. de 2006

Grito de Alerta (Gonzaga Jr.)


Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça e me bota na boca
Um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas Assim meio pedindo
Querendo ganhar um bocado de mel
Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo, reflito e estendo a mão
E assim nossa vida é um rio secando
As pedras cortando e eu vou perguntando
- Até quando ?
São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo, arrasando
Aos poucos com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo de gritos e gestos
Num jogo de culpa que faz tanto mal
Não quero a razão pois eu sei
O quanto estou errada
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar um momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais pra engolir
Veja bem, nosso caso é uma porta entrea
bertaE eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta
Veja bem, é o amor agitando meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não
Veja bem, nosso caso é uma porta entreaberta
E eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta
Veja bem, é o amor agitando meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não

16 de nov. de 2006

O CASAMENTO PERFEITO (Estrela*)



O problema é que sua densidade
vai bem com a minha tristeza.
E assim seguimos
nos enroscando em espiral.
E assim passamos horas
absorvidos na dor,
em alimento à infelicidade,
numa manobra insegura e dorida de contorção,
à procura de aconchego.
*
Aprendemos, antes de tudo,
a importância da mesma estratégia de sobrevivência:
fazer da lágrima o combustível para gerar vida.
Por isso a identificação imediata,
entre os tantos que caminhavam sob o mesmo sol.
*
Desde a primeira vez que sentimos o cheiro
da vontade mútua de desaparecer,
em meio a muita fumaça esverdeada,
sabíamos que haveria entendimento
fosse a linguagem vocal,
de gestos ou da mais completa paralisia
*
Quando eu simplesmente te negasse sons
ou fechasse os olhos, sabia:
alcançarias a intenção das palavras caladas.
*
E tu sabias que eu tomaria as atitudes certas
e te protegeria dos constrangimentos,
toda vez que, enfraquecido,
deixasses o personagem entrar em cena
entoando, sem tua permissão,
entre galhadas sonora
se gestos de alegria exagerada
os teus mais secretos medos
*
Cheirávamos a porto seguro.
Então, selamos o pacto de dor.
Prometemo-nos fidelidade eterna:
Só para teus olhos derramaria minhas lágrimas.
Só em mim buscarias guarida do medo da noite.
Só nos teus ombros,
eu descansaria o peso que carrego.
Só em meus ouvidos maldirias o mundo.S
ó em tua boca depositaria meu desânimo.
Só a mim permitirias
exalar o cheiro da tua desistência.
*
Pela benção do sagrado, viramos um.
Na tristeza e na tristeza.
Na doença e na doença.
Por todos os lentos dias de nossa vida.
Serias meu homem... seria tua mulher...
Até que a morte nos unisse
em energia decadente
para todo o sempre.
*Rita Mendonça é escritora (http://palavrasdeabsinto.blogspot.com).

6 de nov. de 2006

Esperando.. (Janaina Maciel)


Eu não quero conselhos nem consolos,
Esconder meus mares revoltos,
Viver de olhares soltos
E sempre me enganar.

Eu quero que alguém invada minha vida,
Impeça minha ida,
Mexa na minha ferida
E me faça suspirar.

Eu preciso de um olhar sabido
Que me arranque o vestido,
Mas brilhe quando eu rio
E pergunte se pode ficar.

Não espero que seja pra sempre,.
Só quero o friozinho no ventre
Esperando que chegue e entre
Sem nem avisar.

Então, em companhia da dor,
Fico aqui sonhando esse amor
Que meu coração finge acreditar.

(Rimas pobres, tristes, perdidas e sonhadoras.. igual a mim. *)
*Janaina Maciel.

Deus como as coisas mais simples são tão belas... Entendo sua modéstia, linda e jovem Janaina, mas não deixe de escrever rimas pobres, tristes e perdidas, pois como toda sonhadora aqui é teu lugar. Venha sempre nos visitar que será bem vinda.
Fábio Sirino.

3 de nov. de 2006

Se Perguntares II (Fábio Sirino)

Digo que já não precisas se repetir...
Pois sabes que realmente não me conheces
Que sou o que passa despercebido
O invisível mutável no canto da casa
Sou o que se varre e não recicla
Poeira, lixo, algo que se come e cospe...

Sou também, o que sonha em fazer o bem
E sempre é tido como louco, fazer pouco disso é normal.
O que manda flores para ser mandado embora
O que tenta se entregar para não ser visto ou procurado
O que se despe, terno e companheiro para ser condenado ao abandono

Rei sem trono, político sem mandato
O que trabalha por graça e pelo que acredita
O homem de bela alma, o bom amigo
Esse que se castiga e se cala
Esse que chora e se isola
E se aflora o desejo, será chamado de supérfluo

Não precisas dar-te justificativa para o desconhecimento...
Os desinteressantes já sabem do seu lugar
Entendem mais que qualquer sociólogo sobre segregação
E parte para a mentira dos risos como medida paliativa
Para se tornar uma boa companhia

Deixo no rastro, minha dor
Das fantasias e das angústias
Deixo a herança dos que se empenham em pensar no outro
Em fazer o outro gozar
Curtir e brincar, de fazer sorrir uma criança triste contando estórias

Sim, nobre companheira...
Existe gente assim
Que acredita que um poema conquista
Na fidelidade e na doação
Na paixão e na persistência, no que é justo
Que crê na justiça e em Deus...

Mas, do que adianta tal continuação
Se sei que me desconheces
Se sei que não me enxergam
Talvez continue andando pela falta de destino
Talvez falando pela falta de ouvinte para cansar de mim
Sou um esgotado que se arrasta vida a fora
Sem portas ou vizinhança para doar um copo d'água

Tenho a chaga dos que acreditam na humanidade
Nos que acreditam no amor
Sei que nem imaginas quem sou
E passas por mim sem olhares
E sais de mim sem pudor

Então se te perguntarem quem sou
Nem precisa mais dizer que não me conheces
E nem que achas que sou ninguém...
Cale, e dê com os ombros.
Não gaste o seu precioso português
Com alguém triste que nem merece sua explicação
Pois continuarei sendo um ninguém em meio à multidão...

O que Deus deu... (Fábio Sirino)


É hora de cair do céu
O lugar que nunca a mim pertenceu
Compartilhar do brilho e da luz
Dos encantos e da paz
Foi hora de cair o meu mundo
Momento impróprio
-Mas, quem é perfeito-
Fico na ânsia e no vazio
Algo que aperta o peito e faz chorar.
Para que Deus me deu tal presente
Se predestinado já estava tal fim?
Como posso esquecer do sabor
Do cheiro que escolhi como perfume
Para esfregar meu corpo e entregar minh'alma
Qual será a verdade que posso contar?
Entre meu medo da morte e minha falta de viver?
Qual afirmação será mais digerível, lógica e comum?
É cedo para falar ao telefone
E tarde para evitar o desejo da voz
Remédio para o buraco negro do meu espaço caído
Que mundo foi esse que imaginei
Se volto às indagações
E aos medos que achei ter perdido?
Encontro no último andar o fim das escadas
E o céu que Deus me deu desaba sobre minha cabeça
Quando estou sem força nem ânimo
Para empurrá-lo para cima
Queria dizer a Estrela o que de mais lindo há no infinito
E gritei em voz baixa, e fiz má-criação justa
Fundamentada e já cansada, esta, meia que guardada
Entre o peito e cabeça,
Entre o pé e o universo que não é meu
De volta as origens, estou eu
Minha raiz é forte demais para que eu acredite em felicidade
Mas sei que no fundo estou agradecido a Ele por tal presente
Compartilhei momentos ao lado do cosmos
E pude sentir um curto gosto de felicidade
Tudo foi passageiro, eu sei...
Agora volto à solidão do meu apartamento vazio
Sem cor, de sorriso cinza.
Fico no fim das escadas para a linda Estrela
Quem não tem nada pra te dar sou eu
Leva contigo meu amor
Que te lembrarei como o presente que Deus me deu...

1 de nov. de 2006

Sem medo da dor (Fabio Sirino)

(Poema para quem grita, e se irrita com o silencio...)


Na sombra das gérberas
Como sobejo do espelho
Da vida que escolhestes
Minha parcela é dispensável
E mesmo assim busco acreditar-te.

Perco poemas e idéias
Restam os anéis dos teus dedos
Que fantasio elos e sons
Dos pés ao encontro do caminho

Tenho um adversário forte
Invisível e incansável
Pois teu passado move o moinho
Faz do teu engenho nostalgia
Do mal que te cansastes
Do mal que fizeram a ti
E da culpa que criastes
A mais pura tradução
Das tuas regras e limitações

Sim! Forte são os guerreiros
E me orgulho em persistir
Digo ao meu instinto
Que sem minha auto-destruição
Por ti teria a mais pura amizade
Mas se sei que não temo a dor
então; tenho por ti desejo
E o mais sincero e inseguro amor...

*****************

31 de out. de 2006

Cartas às luzes dos postes (Fabio Sirino)

Pelas esquinas que passo
No alto dos postes
Vejo as luzes e as estrelas
Pois o que escrevo me toma como fixação
Uma doença que precisa ser expelida
Pela paixão ou pela situação
Onde me encontro é menos importante.
O que vale, é como me encontro
Meio a perguntas e pensamentos
Quem de nós menos envolvido
Nessa cadeia de medos recordados?
Ato-me ao teu laço de proteção
E fujo com minhas perturbações
Mesmo perto temos mundos distantes
Atribuições e prerrogativas
A pressão que me mata é tua indiferença
Sem nomes ou planos
Fico eu sem futuro ou presente
Deixo que passe tua tensão
E espero vir para o próximo mês
Que venha mais leve
Que isso pese na falta que me fazes
E não preciso que me leia em escritos
Já tenho cicatrizes suficientes para gritar-te
Dizer alto teu nome, sem a mínima vergonha
Para que o mundo nos ouça e pare...
Escrevo sim, como revide
Às grosserias e negligências
E se isso a te incomoda, a mim mais...
Volto à linha do poema
Para que as luzes dos postes
Deixem as esquinas mais claras
Pois a claridade é quem me segura a mão
Afaga a ferida da alma e aconselha-me a ter calma
E por fim
Manda que diga ao mundo a minha dor
Dos meus entraves e do meu amor...

27 de out. de 2006

Olhos que quero conhecer. (Fábio Sirino)

Como posso enxergar
Os olhos que não conheço?
Pela tela tela vem pensamentos meus
Sobre o que devi estar por traz deles
(Tuas estórias, o timbre da voz, a maneira de andar,
O charme, como trata as pessoas)
Explanação de quem não conhece
Confesso meu encanto pelos olhos
(Sim eu me encantei com os teus)
Mais não pela beleza deles
Mas sim pela expressão que transmitem (o olhar)
E o que esperar?
Como um também desconhecido
Deixo que minha imaginação guie os sonhos
Como tais, se vão com as janelas que fecho
E quando torno a abrir lá estão eles
Cheios de mistérios e luz
Olhos que não me enxergam
Que lêem minhas tolices vãs
Que assiste no cinema extinto de penedo
O filme do passado não vivido
Que insistimos em recordar
Como lembrança que não são nossas
Mas que fazem parte do nosso imaginário
Imaginário de penedo...
Dos olhos que conheci pelo computador
E que não sei se gosta de cinema
Ou de poemas!?

19 de out. de 2006

Poema por telefone (Fábio Sirino)


Na mudança de cor, de forma e tempo
Pelo vento que sai da língua em forma de palavra
Na mescla do suor, da boca e do metal que nela há
Toca os alheios ouvidos com a melodia
Que se agiganta em meigo som
Trazes no moleque a menina sexy implícita
Que pela necessidade de mudar, esquece do que é
Pois tua beleza facilita o improviso
E sussurro por telefone ao teu ouvido
Para que termines o poema para mim.

8 de out. de 2006

Necessidade (Fábio Sirino)

Será que prossigo?
Minhas mentiras são as mais puras verdades
Num trafego de sonhos e frustrações
Posto isso, o resto é mediocridade...
Palavras vãs, verbetes;
Sinto falta da vontade de morrer
Daquela forma eu me sentia vivo
Quiseras eu chamar-te a atenção
Quisera eu que tu me notasse.
Creio sim em assombrações,
Nas sombras do meu quarto elas aparecem
E as chamo de Amor,
Paixão,De Solidão e Esperança...
Quando mar sou criança e brinco
Quando noite sou marginal e amo
Amo por amar,
Brinco pela mais pura necessidade
Ou o contrario...
Brinco por brincar
E amo pelo mais puro egoísmo...

26 de set. de 2006

Feliz Aniversario?! (Fábio Sirino)

Hoje é meu aniversario
Nasci no dia 23 de setembro
E gostaria de não estar comemorando
Com a cara lavada na dor
Sou apenas o que restou
Do homem que tentei ser
Sou a causa e o efeito
Das pancadas que não assimilei
Do que não pude revidar
Do grito que entalou
Aquele que engasga na garganta
O que quer ser dito
O que quer escutar apenas uma voz
Sem velas ou bolo
Sem bolas ou apitos
Serei eu em um eu mais velho e triste
Sem razões a compartilhar
Como se passado fosse
E o hoje fosse ontem
Desejam a mim o que gostariam de ter
- Muitas felicidades-
E vou além do que quero
Na mentira mais deslavada
No contrário do desejo
-Muitos anos de vida...

19 de set. de 2006

Tabacaria (Alvaro de Campos*)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardenteO seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a
Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


[parte do poema de Fernando Pessoa*]

3 de set. de 2006

Preliminar I (Fabio Sirino)


Pela dor que me atrai
Pelo músculo que me pressiona
Idas e vindas, do que não se foi
Descubro em formas e cheiros os sabores do pecado
Além do que a normalidade permite

De cor negra escorre em mim seus cabelos
Seu suor e força, em minha cara
Por onde fugir se sou quem busca
Se quero seguir a estória que ela viveu

Seja pelo pudor que não tivemos
Ou pela ética que buscamos
Serei o que o tempo permitir
Em versos do gozo que provei
Em “boca oca, de língua míngua”
Do cheiro que impregna meus dedos
Que dão sabores aos escritos

Na pele o som da musica respirada
Do compassado ritmado do ventre seu
Ondulações e formas impensadas
Que os olhares apimentam e calam
A espera do que se achou ou se perdeu.

Seja feita a sua vontade
E por maior que sejam os motivos
Sou triste por vocação
Na penumbra do quarto
Nas sacadas e nas plantas
Incluso o marginal dos sorrisos
Aconselho a pular
Do ultimo andar para o inferno ou paraíso...

15 de ago. de 2006

Palavras de Absinto (*Estrela)


(Intimidade)
Ele me viu nua, já no primeiro dia.
Pois, de que outra forma teria visto minha alma?
E eu sei que viu!
Eu, que a vida toda tantos cuidados tomei
para mostrar minha essência
apenas ao que me inspirasse confiança,
agora, me via nua, diante daquele estranho,
que só não me fitava os olhos,
mas por todo meu corpo e pela minh’alma corria os seus.
*
E Ele não se contentava em apenas me olhar.
Queria mais!
Imaginem: queria fazer minha leitura!
Ah, não, isso não!
Isso eu não permitiria!
E até que sou tolerante.
Mas, nesse caso, quanta ousadia!
*
Mulher braba, que sempre fui,
Esperneei, ameacei, roguei pragas,
Sem medo que, atiçando sua ira,
ali minha existência chegasse ao fim
– mas era mal menor que a exposição,
que naquele momento eu sofria.
*
E maldisse seu sangue,
em todas as gerações que lhe seguissem,
Se chegasse mais perto de mim.
*
Gritar, não! Isso eu não fiz!
Ele não podia conhecer mais um pedaço de mim,
tão bem guardado,
sem que me trouxesse ainda mais encantos.
*
Não gritei, e nem recitei poemas.
Aquilo tudo era intimidade demais para eu suportar
sem medos e sem acanhamentos.
*
Exausta com toda aquela situação, proferi em desespero:
“Afaste-se de minha alma!”
Foi somente essa a fala que conseguiu me arrancar,
em todos os momentos que (sobre) vivemos juntos.
*
Mas Ele não foi embora.
Alheio a minha ordem,
continuou a passear pelo meu corpo,
pelos meus pensamentos, pelas minhas pernas,
pelas minhas marcas, pelas minhas dores e delícias...
*
Finalmente Ele pareceu cansar.
Mas foi aí que me olhou nos olhos, espelhos do que sou.
E sorriu...
Pelo semblante, estava maravilhado...
*
Por um segundo, apenas, piscou os seus,
e saímos do transe, desconectamos.
Foi aí que me perdeu de vista.
Houve tempo suficiente para que eu pudesse fugir.
*
Pronto, era dona de mim de novo.
Inteira, audaz, indomada, corajosa, assustadora...
*
A partir daquele momento,
Ele passou a carregar um certo semblante...
Um semblante de gozo,
que eu só tinha visto antes
na face daqueles que pintam, escrevem,
dançam, tocam e assim seguem a celebrar a vida.
*
E sem que fizesse sentido algum,
assim, sem violências, sem toques,
sem palavras venenosas
sem nada que servisse para justificar a atitude,
Cobriu-se com seus cílios e se foi...
E nunca mais abriu os olhos para mim.
*
Pergunto-me, ainda hoje, o que somente ele viu,
que eu ainda não conheço.
O que de belo habita em mim,
que eu nem mesma sei, e nem tiro proveito.
E também o que machuca, e arranha, e fere, e mata.
Só sei que com sua ida,
algo se desencantou nos meus dias...
*
Desde então, nunca mais fiquei nua
para quem quer que fosse.
Sei como acontece, e aprendi a evitar.
Assim, passei a ser inteira e unicamente
desse estranho invasor de minh’alma.
*
Têm dias em que sinto um lamento, um peso...
uma quase saudade
Daquele estranho homem que me tirou a roupa,
visitou minha alma,
Conheceu-me inteira e se foi sem palavras...

BR das possibilidades (Fábio Sirino)

O medo do que fui
E o encanto do que és
Dão as regras desse jogo
Mas tendo o medo em mim
Temo todas as cartadas
E me fascino com as explicações
Entre o que fui e o que és
O oposto nos atrai.
A uma estrada sem volta
Na falta de pele
E peço censura as nossas palavras
Que vença o silencio
Que vença o beijo
Que vença o olhar
Que vença o desejo
E se o que fui deixar-me seguir
E o que eis levar-me junto
Não Haverá necessidade de desistência
Mas de novas estradas

8 de ago. de 2006

Poema da avareza sentimental(*Estrela)

(O que me dás de ti )

O que me dás de ti...
É tudo – e tão-somente – o que te escapa entre os dedos.
O que tuas mãos trêmulas e cerradas não conseguem me esconder –
por mais que tentes.

O que me dás de ti...
É um breve olhar de relance, desses tão negros olhos acanhados...
É um sorriso do canto de tua grande boca, mas contido.
Um acidental roçar do teu forte braço
Ou ainda que um abraço, mas chega a mim frouxo e sofrido...

O que me dás de ti...
É um corpo que me vem ao longe, já oscilante,
Pernas cambaleantes, braços que não sabem onde estar...
É nada mais que uma palavra, em voz rouca.
Um suspirar ofegante...
Subitamente interrompido.
Privado do respirar, privado do meu cheiro... impedido de me amar!
Ainda assim, me vem ao longe seu coração sem cadência, assustado.

O que me dás de ti...
Pensamentos, censurados,
Desejos, ousados – mas secretos e discretamente sonegados.
E uma aparente – mas construída – indiferença,
O que acentua o teu charme blasé e reputação de “pessoa mal resolvida”.


O que me dás de ti,
O que somente me dás de ti, sem sovinices,
É a tua ausência...Com esta, me brindas em abundância!
Ah, a lentidão das horas que me visitam e se passam sem que eu perceba a tua luz...
Mas ainda que eu te mereça pouco...
Tão pouco, assim...
É menos do que a mim caberia...


(Poema enviado pelo orkut. )
Que as mulheres façam poemas como fazem vida. +
+Fábio Sirino.

15 de jul. de 2006

Girassol (Fábio Sirino)



Grite girassol
Digas o que sente
O seu silencio me mata mais
Grite girassol
Fala o que quer
O que lhe cala
A palavra que se guarda à força
Então... Tome uma atitude
Sem interferência de qualquer poesia
Sem musica ou fotos flagrante
Seja solidária girassol
Observe o vento ao seu favor
E os pingos de chuva que buscam seus dedos
É girassol...
Você deixa saudades
Desperta em amores
Encanta o cantador e ganha a cantada
(E o que queres mais girassol?)
Não cale girassol
Pois preciso ouvir sua voz
Sentir seu cheiro
E dançar a noite toda
Quero beijar-lhe e muito mais
Sem enfeites no meu resto de vida
Busco algo que faça parte, que some.
Sem quadros de natureza morta no apartamento
Deixo a esperança esperar
O sol nascer pela manhã
Para que junto à janela e o jardim
Veja o brilho da vida
Vamos girassol fale para mim
Pois já disse que lhe amo.


13 de jul. de 2006

Câncer (Fábio Sirino)



(o triste fim de uma mãe)

A mulher esta morrendo...
Definha na velocidade dos segundos
E sua segurança e prepotência
Vão junto às lagrimas
E o cabelo que lhe resta.
A cabeça cansa da batalha,
Seus sonhos morrem com ela
De toda uma família desunida
Que sofre junto, mas chora separado
Em terços e promessas
Numa fé inútil
Que o câncer insiste em mostrar
A cada luta perdida,
Com enjôos e tonturas
Que a deixam mais derrotada...
E o veneno aliado ataca ambos os lados
Do mesmo corpo que se cansa mais e mais...
Ela uma mãe, uma ex esposa
E como ex ainda sozinha
Sem um ombro que possa confiar
E do que valem seus filhos
Se ela sente a necessidade de passar a força que já não tem
Lições da vida que nunca viveu
Mas do que vale a vida
Se ela definha na velocidade dos segundos
E seus cabelos caem...
Se o câncer nos tira a fé...
Do que vale a vida
Se a mãe que está morrendo é a minha.

10 de jul. de 2006

Para longe de mim (Fábio Sirino)

São apenas pancadas
Todas essas marcas
Que trago na alma...
Como um troféu de superação
Sem ter esquecido nada
Mil angústias tenho em mim


São apenas pancadas
Essas que tu percebes
Dentro dos meus olhos
Nesse jeito afoito e paternal
De guardar frustrações
De uma juventude fodida


Não me digam o que tenho
Pois fui diagnosticado centenas de vezes
Um maníaco depressivo
Um lunático romântico
Um artista compositor de poemas
E nada se tornou completo
Sou todos os diagnósticos
Sou parte dos erros que cometi
É... No fundo não são apenas pancadas
Eu as sinto muito maiores
Elas me tomam a alma marcada
Numa dor inimaginável
Até para quem a sente
E a carrega durante anos

Não me restam mais amores
Nem amigos, bares ou familiares;
Eu nem sei se confio mais em mim
Ou se decido tudo sozinho
Para confessar pecados meus
Dar-me uma punição
(como se já não bastasse)


Tento fugir de tudo
E pra onde corro
Sempre percebo o quanto estou perto
Torno a correr para longe das minhas incertezas
Mas para onde quer que eu vá
Acabo sempre encontrando comigo
E torno a correr para longe de mim...