13 de dez. de 2010

Recorrência (JurandirBozo)

(Ana II)

Faltam-me respostas
E assim entre as cortinas
Ela invade minhas reservas mais intimas
Filma meus álibis
Expõe-me a verdade que nego
Como se continuasse o mesmo poema
Em um só livro de calor
Onde se repetem as loucuras que não cometi
Ouso então em vorbomanias
Cigarros que se acabam
Sem saliva, sem água, sem leite, sem Nescau
Como adoçarei minha boca que amarga
A espera das correspondências que não retornam
Mensagens que sequer sei se foram lidas
Motivo da minha insônia
Ela dança na minha cabeça
Faz algazarra de minhas memórias
Na minha cabeça toca Ela, toca nela
E por isso ninguém me entende
Musica e som de gatos se amando
É...! Eu também sou brega
 E observo o apagar das luzes
Pois não temo seu escuro mundo de fantasias
Mascarando vontades incomuns
Porque quer Ela saber das poesias que não publico
Detalhes minuciosos e suados
Dos meus devaneios mais reclusos
Poeira que varro para o canto do teatro
E que o vento não procura
Enquanto a convido para meu espetáculo
Apresentando-lhe minha morada
Para fazer-la ri eu encanto a platéia com pouco pão
Carrego migalhas nos bolsos
Nos bolsos das calças migalhas de historias passadas
Que deixam a madrugada me cansar
Para trazer Ana novamente pra mim

12 de dez. de 2010

Ana (Jurandir Bozo)




Ainda esta longe demais de mim
E ao perceber tal distancia, eu penso em calar
Calar meus olhos e meus pensamentos
Eles que buscam por Ana mesmo distante
Quem me dera ter o dom de manipular o tempo
Ou os espaços geográficos
Quem me dera poder ter Ana mais perto
Mas quando a vejo é que entendo
 Há algo além da geografia
Que me impede de chegar a Ana
Algo bem maior que física ou as explicações lógicas
Sim! Eu sei que na única vez que toquei em Ana
Meu espírito sorriu tímido e me veio um arrepio assustador
Ela contida mal sorriu, mas iluminava todo rol
A boca de Ana me roubava os olhares
Condiziam-me a fantasiar tolices
Como gostaria que os segundos e minutos
 Fossem mais compreensivos
Mas não, ela apenas se foi
E numa despedida desconsertada
Eu mais uma vez pateta atrapalhado
- Como não soube conduzir-me diante dela?
O que ela pensa de mim?
Talvez Ana tenha roubado bem mais que os olhares
Ana levará consigo um pouco dos meus sonhos
Dos meus pecados e arrependimentos
Linda! Assustadoramente linda...
Assim se seguem os dias e só aumenta a distancia
E Ana vai se afastando minuto a minuto
Palavra a palavra, Janela a janela...
Eu aqui passivo a observar seus perfis e fotografias
Já sinto que Ana não me pertence
Ou nunca me pertencerá
Seus beijos, suas curvas e pernas
Seu gosto, seu gozo e seus pensamentos
O amor de Ana, as paixões de Ana
Elas se encontram em outro planeta
 Moram nas estrelas e fazem mistérios
Respiram outros ares
Mergulha em outros mares
E vive em outra vida
Ainda me pergunto o que fica de Ana
Já que a sinto indo e indo, sem despedidas
Como quem vai para constelações mais distantes
Em mim fica de Ana um vazio
De algo que nunca tive
Um desejo de quase amor, quase paixão
Uma volúpia acelerada, algo ainda maior que eu
Uma vontade de quero mais do que nunca provei
Seu corpo, seus seios, seus pés, sandálias e saltos
Suas coxas, sua boca, minha língua ou minhas mãos
Que em frenesi decifrariam em braile
Os segredos impressos na pele e nos pelos seus...
Ficam minhas intenções não realizadas
Uma carta aos meus anseios mais profundos
De Ana fica uma lembrança prazerosa
Dos meus sonhos e delicias
Que se renderam a ela.

24 de nov. de 2010

Pós Aplausos... (Jurandir Bozo)


Será apenas mais uma emenda?
Meu corpo sangra de tantas costuras
Pedaços do passado e retalhos atuais
Transformam meu figurar num personagem sem futuro
Que maquiagem herdará meu rosto
Depois de tantos espetáculos que fiz?
Perco no espelho a referencia de quem fui
Luzes, tons e cores, a beleza das formas e coreografias
A excentricidade do que chamam reinvenção
Letras e fôrmas modernas
Quero a estética dos quadrinhos japoneses
Plasticidade e textura das cartas náuticas
Num livro de poucas paginas
Frases fazias que descrevam atualidades
Com luvas, riscos e colagens pop
Dei-me um óculos escuro de lantejoulas
E uma lente azul para envaidecer meu olhar
Registre tudo em três por quatro
E não esqueçam que sou meu próprio figurino
Sou parte dos aviamentos que não enfeitam mais
Fitas sem brilho, espelhos quebrados
Bicos rasgados e botão sem par
Que adereço da vida me traria de volta a paixão?
- Desçam dos céus com tambores e cornetas
Levem-me a vida numa batucada infernal-
Quero uma morte barulhenta
Sou da periferia e adoro um escarcéu
Se for pra ir, eu vou feito um escândalo
Chamando atenção dos estranhos curiosos
Gritando e cuspindo fogo feito teatro de rua
Então com um pouco de cuidado
Pintem meus olhos e os deixem bem mercados
Adoro lápis preto e sobra escura
Com pó claro, deixem-me pálido
Tinjam minha boca de vermelho exagerado
E por fim dei-me de volta meu nariz de palhaço...
Agora após os aplausos todos podem ir embora.

16 de nov. de 2010

A Festa? (Jurandir Bozo)



Ainda sonolento dou-me o direito de ganhar as ruas
Ver o que um dia pensei ser meu
Universo sujo, fogueira de espelhos
Nossa imagem desfocada na luz
Deixa uma falsa impressão
De disfarçar os defeitos
Pessoas, paletós, cabelos escovados, risos e acenos
A noite aflora as vaidades e as fantasias
Regados a champanhe e camarão
As mascaras ganham brilho
A vontade de ser torna-se maior
Que a verdade do que se é
Quem ali seria tão egoísta quanto eu
A ponto de reconhecer na real
A não legitimidade do momento?
Sem respostas meus olhos se escondiam
No passado que a pouco sonhei felicidade
Mas felicidade não recebe convite em festas assim
Ela não se sentiria bem ali, nessa noite ao menos não
Ela morreria no sarcasmo dos quase famosos
E na empáfia do esquecimento
Que nos alimenta de criatividade
- Eu cansado de mim
Das minhas exigências hipócritas-
Assim desfilava apertado entre corpos estranhos
Será apenas desencanto meu
Ou algo se aproxima do fim?
É! Talvez seja a festa...

29 de out. de 2010

Lacônica (Jurandir Bozo)


Prenda-me... Ata-me a te
Pois sou suspeito e sujeito aos teus encantos
E em tuas armas estão meus pensamentos presos
Então exerça a tua autoridade
Sem medo de abusos ou excessos
Use de força necessária, pois sempre estarei aqui
Do teu poder eu não fujo
E discorro em poesia
Entrego-me a lei
Primeiro a lei de Newton
Que guiaram meus olhos a te
Segundo as leis dos instintos
Que me fizeram contemplar-te
Lendo em teu silencio
Historias que nem sei se a te pertencem
Pois no fundo nada sei
Além dos elogios que oferto
E mesmo assim fantasio adjetivos
Como se esperassem de te
Socorro para livrar-me do mau
Amém

15 de set. de 2010

A Exceção e a Regra (Bertolt Breht)




Estranhem o que não for estranho
Tomem por inexplicável o habitual
Sintam-se perplexos ante o cotidiano
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam
de que o abuso é sempre a regra

12 de set. de 2010

Áudio Visual. (Jurandir Bozo)


Passeio por idéias e paixões
Uma espécie de terreno inóspito
Origem da minha vocação
E se o som da minha atmosfera não te encanta
Se todo o visual do meu globo ainda te deixa indiferente...
Pega teus discos, tua apatia contemporânea
A tua cara de nada e o seu jeito urbano de roubar idéias
Junta tudo e vá à merda!
Vá do estagio mais alto da tua incompetência
Ate o mais baixo nível da justiça que te guia.
Pois hoje já me sinto disposto
Para abarcar esse mundo esfumaçado
Orgulhoso sim, mas nunca arrogante.
Respeitoso sim, mas nunca subserviente
Ate certo ponto calado, mas nunca omisso.
No fim de todos os jogos fica algo alem dos resultados
Fica a lembrança satisfeita do que junto realizamos
E uma pequena divida,
Entre a partida, o caminho e a chegada.  
(Além da grana que ainda falta receber... rs)